sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Quando eu vier ou quando eu vir?

As duas formas na verdade pertencem a verbos distintos, conjugados no futuro do subjuntivo. Esse tempo corresponde a um futuro hipotético, ou seja, a algo que se espera acontecer em um futuro próximo. É geralmente utilizado em orações condicionais iniciadas pelas conjunções "se" ou "quando". 

Ex. Quando eu chegar ligarei para você.

Deriva-se da 3a. pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo, trocando a terminação “ram” por “r”, res, r, rmos, rdes, rem segundo as pessoas. Dessa forma, vejamos o verbo "vir".

3a. pessoa do pretérito perfeito: vieram. Retira-se a desinência "ram" e teremos o radical "vie" ao qual acrescentaremos as terminações do futuro do subjuntivo:

(quando) eu vier
(quando) tu vieres
(quando) ele, ela vier
(quando) nós viermos
(quando) vós vierdes 
(quando) eles, elas vierem

Dessa forma, para o verbo "vir" a primeira pessoa do futuro do subjuntivo é "vier". 
Ex. Quando eu vier, trarei as encomendas.

Já a forma "vir" corresponde ao futuro do subjuntivo do verbo ver. (3a. pessoa do pretérito perfeito do indicativo: "viram" - radical "vi").

Ex. Quando eu vir, acreditarei. 





quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Pronomes pessoais átonos com formas verbais do futuro do presente e do pretérito

Embora como regra geral os pronomes oblíquos átonos  devam ficar depois (pospostos) aos verbos (ênclise), há muitos casos em que a próclise (colocação dos pronomes átonos antes do verbo) é mais recomendada e outros em que a ênclise é tida como incorreta do ponto de vista da norma gramatical.
Um exemplo de obrigatoriedade da  próclise é com as formas verbais do futuro do presente e do futuro do pretérito. Contudo, isso está longe de ser "ponto pacífico" entre nossos gramáticos: podemos ver, por exemplo, essa "regra" em Rocha Lima na sua Gramática normativa da língua portuguesa apenas como uma pequena nota e sem exemplificação, enquanto que em outras importantes como a de Bechara em sua Moderna gramática portuguesa sequer encontramos menção a isso.
Contudo, vamos seguir como norma gramatical a aceitação dessa regra:
(em vermelho as formas em desacordo com a norma gramatical)

Ex. Eu te entregarei o livro amanhã. (com futuro do presente) (entregarei-te)
   
    Nós nos encontraríamos no fim da tarde se não fosse essa chuva. (com futuro do pretérito) (encontraríamo-nos)





quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Se não ou senão?



Há uma certa dúvida pois ambas as formas podem ser usadas em ocasiões em que nos referimos a ideias adversativas, contudo, a gramática impõe distinções entre ambos.

Se não é (conjunção condicional se + advérbio não): a dica é trocá-la por "caso não", se mantiver coerência a frase, empregamos essa forma:

Ex. Se não (caso não) há o que dizer, cale-se.

Usa-se se não também caso o "se" esteja em função de conjunção integrante, ou seja, iniciando uma oração subordinada substantiva.
                       (conjunção integrante)
Ex. Perguntei se não era possível remarcar a consulta. 
                           (oração subordinada substantiva objetiva direta)



Escreve-se "senão" quando a palavra assume as seguintes funções:
1) De conjunção alternativa, podendo ser substituída por "caso contrário";
Ex. Vamos nos apressar senão chegaremos atrasados. 

2) De conjunção adversativa, sendo possível trocá-la por "mas (sim)";
Ex. Não era caso de grito, senão de conversa.

3) De preposição, tendo o mesmo significado de "com exceção de", "exceto", "apenas", "somente";
Ex. Não ouvíamos senão os sussurros. 

4) De substantivo masculino, significando "falha" ou "defeito".
Ex. Não havia um senão em sua fala. 


Há ainda a expressão: "senão vejamos" ou "senão, vejamos" (vírgula opcional) que é estereotipada e segue sempre essa forma.

É "só" isso ... hehehe

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Paralelismo semântico

Já falei do paralelismo sintático em outro post, vejamos agora outra espécie de paralelismo, o semântico, ambos comentados por Othon Garcia em seu comunicação em prosa moderna.
Tal como o sintático, é algo pertencente ao estilo, ou seja, não é algo obrigatório, mas serve como um recurso importante para garantir a fluência do período e para criação de ironias ou humor.
Comecemos por um exemplo:

Ex. A viagem foi ótima, fomos primeiramente ao Paraná e depois a Blumenau.

Os termos coordenados: Paraná e Blumenal pertecem a campos semânticos distintos: estado e cidade respectivamente.

Tal como o sintático, esse problema, embora não seja considerado "erro gramatical" deixa a leitura mais truncada, sendo, portanto, o paralelismo, uma forma de darmos mais fluência ao texto. Vejamos o exemplo com paralelismo.

Ex. A viagem foi ótima, fomos primeiramente ao Paraná e depois a Santa Catarina onde visitamos Blumenau.

Contudo, para efeitos de humor e ironias é muito comum essa quebra. Vejamos:

Ex. Ele é professor e rico.

Os termos: professor (substantivo) e rico (adjetivo) pertencem a classes de palavras distintas. Contudo, percebe-se que a coordenação entre esses termos pode (dependendo do contexto) indicar ironia. Nesse exemplo, subentende-se que a ideia de "ser rico" é surpreendente para um professor. A conjunção "e" possui nesse caso valor adversativo, próximo a "mas".
Nesses casos é sempre comum o efeito humorístico ou irônico recair sobre o segundo termo que serve como quebra da expectativa lançada pelo primeiro termo.
Conclui-se, portanto, que o paralelismo semântico,  tal como o sintático, não é obrigatório,  mas recomendável para uma maior fluência do período, sendo sua quebra um importante efeito humorístico.
Qualquer dúvida,  usem os comentários.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Paralelismo sintático

Como nos ensina Othon Garcia em seu Comunicação em prosa moderna (adoro esse livro), esse processo aplica-se às orações coordenadas; Não é obrigatório, mas torna as orações mais claras e favorece a uma leitura mais rápida e eficaz na medida em que simplifica a estrutura sintática entre duas ou mais orações relacionadas entre si por coordenação.
Vejamos primeiramente um exemplo:

Não saí de casa por estar chovendo e porque era ponto facultativo.

A conjunção coordenativa usada entre as orações 1 e 2 (por) é distinta da usada entre 2 e 3 (porque), embora a relação seja a mesma (explicativa).
Ainda que não seja considerado um "erro gramatical" pois as conjunções usadas estão de acordo com a ideia subjacente (explicação), a falta de paralismo torna a leitura um pouco mais truncada pois as estruturas sintáticas ficam diferentes (os tempos verbais em uma oração (estar no infinitivo) e na outra (era no pretérito perfeito)) e isso acaba por atrapalhar a fluência. Aplicando o paralelismo, teremos um período com uma estrutura semelhante e isso favorece a leitura. Vejamos:

Não saí de casa por estar chovendo e por ser ponto facultativo.

Ou

Não saí de casa porque estava chovendo e porque era ponto facultativo.

Ou ainda:

Não saí de casa não só por estar chovendo mas também por ser ponto facultativo.

A escolha entre cada uma das possibilidades deve levar em conta o objetivo do texto. Sendo assim, a primeira estilísticamente é melhor para textos mais objetivos, por ser mais concisa, enquanto as outras duas seriam mais aplicáveis a textos mais rebuscados.

Portanto, embora não seja obrigatório,  o paralelismo sintático é aconselhável como uma técnica para tornar mais simples e eficaz o período. 
Por fim, há ainda o paralelismo semântico o qual comentarei depois.
Qualquer dúvida,  usem os comentários.

sábado, 31 de agosto de 2013

Veja só que "texto" esse ...

Esse "texto" está afixado na entrada do elevador do condomínio onde moro. Vendo-o eu me pergunto: que escola é essa que temos hoje em dia?

Guajirar?


Outro dia, passeando em um shopping, "namorava" eu alguns produtos eletrônicos quando encontrei um colega professor que me perguntou o que estava fazendo. Disse que apenas olhando uns computadores. Então ele brincando, afirmou: "guajirando". Não entendi de que se tratava e ele me disse que sua mãe que tinha uma boutique no interior cearense usava essa palavra para referir-se a quando pessoas apenas olham as mercadorias sem nada comprar.
Achei interessante o termo e o procurei em meus amigos Aurélio, Houaiss, Michaelis e Aulete, mas nada encontrei. Decidi então procurá-lo na internet, mas sem sucesso também.
Vejam só como o povo é criativo: criar um verbo para dar conta da ação de "olhar produtos sem a intenção de comprar". Que eu saiba não há um verbo "legitimado" por nossos dicionários para dizer a mesma coisa.
O verbo namorar, tal como usei nesse texto, tem esse sentido coloquial atestado por dicionários importantes, vejamos:

Houaiss: "desejar muito, cobiçar; agradar-se de algo, ter desejo de possuí-lo"
Aurélio: "desejar muito, cobiçar"
Aulete:  Desejar (algo); olhar para (algo) com desejo, cobiça [td.: Vivo namorando esse carro há muito tempo]
Michaelis: "desejar muito, apetecer, cobiçar".

Por que não "legitimar" o verbo "guajirar"? Faço então um verbete meu para esse verbo tão bacana e que sem isso certamente vai se perder sem ser atestado, assim como tantas outras expressões e palavras de nosso povo sertanejo, pobre e,por isso mesmo, invisível para muitos "mestres do português".

Guajirar: Olhar mercadorias sem a intenção de comprá-las. [v.i. Estava ali apenas guajirando, enquanto o pobre vendedor iludido oferecia-lhe tudo o que tinha em seu comércio]

Por fim, resta-me citar Manuel Bandeira e com ele pensar: "língua certa do povo".